![]() |
| Editora Todavia 2024 Tradução: Marília Scalzo Arte da Capa: Luciana Facchini |
Como tornar-se outro? A possibilidade – ou impossibilidade – dessa mudança parece ser a pergunta de fundo que mobiliza a trama de Mudar: Método.
O livro conta, em primeira pessoa, as etapas da transformação de Eddy Bellegueule em Édouard Louis, cujo nome estampa a capa do livro. A coincidência dos nomes do protagonista e do autor da história já nos entregam que estamos no domínio do autobiográfico. Nessa esfera, como é sabido, o autor-narrador-personagem propõe aos leitores uma espécie de pacto – para recorrer ao termo usado por Philippe Lejeune –, convidando-os a ler a narrativa como pertencente ao universo dos fatos verificáveis.
Por ser uma obra “biográfica”, é quase inevitável que nos perguntemos se os episódios aconteceram exatamente como narrados, ou, em que medida os personagens correspondem a pessoas “reais”, ou ainda, se os lugares descritos foram adequadamente reproduzidos, etc. Tais perguntas, que normalmente ocorrem a um leitor de obras ditas "reais", expressam um desejo de se poder confirmar a veracidade do narrado com base em evidências extra-literárias. Creio que alguém já deve ter feito esse exercício investigativo, confrontando a narrativa com a realidade, exercício que não me parece nem necessário, nem interessante, exceto caso se queira produzir uma outra narrativa (igualmente ambivalente, diga-se) em termos de realidade e ficção. Lembro-me, a esse respeito, do excelente O papagaio de Flaubert, do inglês Julian Barnes, no qual o protagonista procura encontrar a verdadeira ave empalhada que teria servido de modelo ao seu autor favorito numa de suas obras e, nesse processo, se depara com as múltiplas facetas biográficas – reais ou ficcionais – do autor de Madame Bovary.
Esse desejo de veracidade, instaurado pela coincidência entre os nomes do autor e o do protagonista, coloca o texto em um lugar vacilante entre real e fictício, entre documento e romance, e é parte do que garante a eficácia do gênero autobiográfico. A popularidade do gênero autobiográfico, em sua versão mais contemporânea, a autoficção, parece-me uma expressão literária da cultura da exposição de si na qual estamos imersos, cultura retroalimentada pelas redes sociais. Esse sucesso é atestado pelo reconhecimento do gênero no cenário literário contemporâneo. Exemplar é a obra da compatriota de Édouard Louis e vencedora do Nobel de Literatura de 2022, Annie Ernaux, cujo projeto literário é definido como “ficção memorialística”.
O livro de Édouard Louis narra o processo por meio do qual o adolescente, oriundo de uma família operária de uma pequena cidade do norte da França, se transformou no escritor internacionalmente aclamado. Assim, Mudar: Método, também pode ser lido sob a chave do Bildungsroman, o romance de formação, pois descreve o processo de “amadurecimento” de seu personagem, sua transição da infância para a vida adulta. Contudo, adverte-nos o narrador de si mesmo: “Não se deve enxergar no que escrevo a história do nascimento de um escritor, mas a do nascimento de uma liberdade, do desenraizamento, custasse o que custasse, de um passado odiado.”
Nesse sentido, a história da transformação de Eddy Bellegueule em Édouard Louis poderia ser mais adequadamente descrita como a fuga desesperada de uma “infância humilhada” que parecia conter a condenação a um destino já conhecido, o mesmo do avô, do pai, do irmão – o trabalho mal remunerado na fábrica, as condições de vida precárias, o adoecimento. Como se não bastassem as exclusões impostas pela precariedade do seu meio social, o protagonista ainda se vê às voltas com a discriminação por sua orientação sexual, sendo recorrente alvo de escárnio pelos colegas. Por isso, a motivação para mudar parece ser um desejo de tornar-se melhor, não no sentido de um autoaperfeiçoamento (que daria ao romance contornos de autoajuda, que ele certamente não tem), mas no sentido de um tornar-se melhor do que aqueles que o menosprezavam:
“Será que mudando eu queria mostrar aos outros que não era mais como eles, será que eu compreendera que mudar não queria dizer apenas se tornar um outro, mas também não ser mais como os outros e, portanto, rejeitar esses outros, abandoná-los, colocá-los desesperadamente abaixo de si?”
Pária entre os párias, fingir ser alguém diferente torna-se, para o adolescente gay, uma estratégia de sobrevivência. O método de mudança que aparece no título do livro é resumido pelo autor no dístico inglês: “fake it until you make it”, interpretado como “[...] represente ser o que não é até que se torne, até que seu papel se torne seu ser.” Não é à toa que o processo de mudança do personagem, ou antes, a consciência da possibilidade de mudança, tem origem nas experiências junto ao grupo de teatro na escola.
A incorporação da identidade alheia pela observação e imitação tem algo de antropofágico – uma das cenas mais emblemáticas do romance é aquela em que a amiga Elena o ensina como manejar os talheres à mesa.
A mudança de si é também um deslocamento espacial. De Hallencourt, para Amiens, de Amiens para Paris, de Paris para o mundo. O processo de abertura progressiva narrado no livro não é, no entanto, a história de um triunfo heroico de um conquistador. É, pelo contrário, a história de suas quedas, um inventário das múltiplas perdas, sobretudo, a das amizades, fundamentais em cada etapa da mudança, mas descartadas ao longo do processo:
“A história da minha vida é uma sucessão de amizades rompidas. A cada etapa dessa vida, dessa corrida contra mim mesmo, tive que me separar de pessoas que amara para poder avançar ainda mais. Eu não decidia isso, elas também não: eu lutava para me transformar, elas não tinham a mesa obsessão, elas continuavam a ser o que eram quando eu as conhecera e de repente não éramos mais parecidos; não achávamos mais o que nos dizer, não nos compreendíamos mais.”
Mas, afinal, quem é que nunca abandou alguém pelo caminho? Ou, então, quem é que nunca foi deixado para trás por alguém que se transformava em outro? Seja como protagonistas da nossa própria mudança, seja como expectadores da mudança alheia, é difícil não sermos tocados pelo movimento visceral empreendido pelo personagem ou com o rastro de escombros que ele deixa atrás de si. O autor se assemelha àquela gravura de Paul Klee que tanto impressionou a Walter Benjamin, o Angelus Novus, no qual o filósofo enxergou uma imagem do anjo da história: “[...] que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente.” Esse mesmo movimento parece ser o de Édouard, distanciar-se de algo que, no entanto, o obseda, ambiguidade de sentimentos que o leva a se perguntar: “[...] eu destetei a minha infância e sinto saudade da minha infância. Será que isso é uma coisa normal?”
A impressão geral da leitura é a de que a transformação do personagem em narrador de si mesmo talvez seja apenas um episódio do processo inconcluso de metamorfose. E é com certa compaixão que nos perguntamos se esse processo tem um fim, suspeitando da resposta negativa a essa pergunta: mudar é a própria essência da vida.
![]() |
| Angelus Novus, Paul Klee (1920) |




